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Economia solidária: o pago e o grátis em pequenos circuítos econômicos.

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Ensaio.

Não é muito normal as pessoas perceberem com nitidez o momento no qual elas estão vivendo. Em se tratando de economia, renda, geração de emprego e cooperação os contornos às vezes ficam mais confusos, em  especial pelo fato de que em uma sociedade capitalista o lucro é a mola mestra do crescimento econômico. Não vou me embrear aqui por discussões econômicas complexas, isso Paul Singer já fez, quero apenas levantar algumas possibilidades e questionamentos.

O primeiro questionamento é o seguinte: é possível oferecer um produto ou serviço gratuito na economia capitalista? Ou, se uma empresa ou pessoa oferece esse serviço há intenções obscuras por trás disso? Obviamente as respostas não são fáceis. Mas, vou tentar desenvolver alguns argumentos sobre esse tema.

Há poucos meses, no Jornal Folha de São Paulo, um nome muito famoso, o qual não quero citar aqui, desenvolveu um argumento defendendo o porquê que seus escritos não podiam ser disponibilizados gratuitamente. Fez uma comparação que na minha opinião foi infeliz. Questionou que seus escritos não podiam ser gratuitos porque se entrássemos em uma rede Pão de Açúcar não conseguiríamos produtos gratuitos.

Não sei se esse figurão ignora ou não leva em conta determinadas experiências que vêm ocorrendo na Europa há algum tempo. Dentre elas, feiras nas quais é possível comer produtos sem pagar nada, mesmo que depois você resolva não comprá-los para levar para casa em quantidade suficiente para sua família. Mas, eu quero ir além disso.

Não acho que todo produto produto ou serviço possa ser gratuito, mas talvez alguns sim. Em conversa com um nome pouco conhecido mas com uma lucidez intelectual incomparável, meu amigo André Ebner, ele me apresentou um futuro no qual o dinheiro nem seria preciso. Depois de refletir muito sobre o que ele falou, vi que ele não é  tão louco como se pode imaginar. Contudo, por enquanto, nem tanto lá, nem tanto cá. Quem sabe podemos colaborar com o início de o fim de uma era – a era do dinheiro.

Vamos pensar em uma profissão braçal até certo ponto “desvalorizada”. Se um pedreiro tivesse a certeza de que iria chegar ao mercado e lá encontrar um quilo de carne grátis, será que ele não faria uma calçada gratuitamente? Mesmo que não fosse para o dono do mercado? O médico cobra uma consulta por que tem necessidades e desejos que para serem satisfeitos precisam de dinheiro. Mas vamos supor que não precisasse. Ele poderia oferecer consultas de graça? Poderíamos dar mais exemplos assim… o mérito desse ponto de vista é do meu amigo supracitado, não é meu. Mas possivelmente não chegaremos nesse patamar das coisas no próximo milênio.

Por enquanto, poderíamos nos contentar com determinados produtos e serviços que são oferecidos gratuitamente. Parece que isso já ocorre, com uma certa “malandragem”. A Google, por exemplo, consegue lhe oferecer muitas coisas que você com certeza pagaria para tê-las: blogs, sites, youtube, e-mail, drives etc. O Facebook segue um caminho semelhante. Só que, ambos usam seus dados, muitas pessoas nem ligam para isso, mas outras se incomodam muito.

Outra forma que essas empresas usam para ganhar dinheiro é com um tipo de pagamento indireto pelos serviços que você  usa. Aqueles famosos anúncios. Alguns reclamam de anúncios em seus e-mail, sites etc. Porém, não reclamam quando assinam ou compram a Folha de São Paulo, o Globo, o Estadão, revistas etc.,  e vê ali várias páginas com anúncios, dos quais você não recebe o mínimo percentual.

Estamos chegando a um ponto em que podemos afirmar que tudo que é de graça na verdade alguém paga por esse produto ou serviço. E isso é fato. Mas, nem sempre a pessoa que paga é o mesmo que consome. Seria isso um avanço?

Uma empresa patrocina um curso em uma plataforma de cursos online gratuitos, coloca uma propaganda ali naquele espaço bem embaixo do curso com o dizer – patrocinado por… O nome dessa empresa fica associado a uma ação educativa-cultural, isso é bom  para ela. Ela não está preocupada com quem fez, vai fazer ou se interessa pelo curso, mas quem faz o curso tem um benefício real. Isso é inegável.

Vamos analisar outro caso, um dono de uma padaria inova no seu pão e resolve distribuir uma certa quantidade para depois de testado e aprovado conseguir boas vendas. Talvez o fim compromete a ação. Contudo, inegavelmente mais uma vez, não dá para ignorarmos o benefício.

Podemos usar mais um exemplo, aqui e agora neste site, você não está pagando para ler isso aqui (se tivesse às vezes não estava nem lendo), mas eu faço isso por gosto, e de quebra, os anúncios da Google geram uma ínfima graninha no final do ano para mim.

Quem sabe a economia possa funcionar parcialmente com pagamentos indiretos, com base em um prazer sincero em fazer algo ou oferecer um serviço que possa ser útil. Ou ainda, com trocas de produtos e serviços de forma não bilateral, mas multilateral. Por exemplo, na certeza de achar um um pintor que pintará minha sala de graça vou dar uma aula gratuita, e não para o pintor que me fez o serviço, mas para que se interessar. Pois saberei que o próximo serviço que receber também será de graça.

São muitos pontos que geram dúvidas e na tentativa de respondê-las novas formas de pensar, sentir  e agir surgem. Vamos a elas!

 

 

 

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